A chuva cai sobre meu corpo. A água, pesada, deixa meus cabelos, longos e negros, grudados em minha face, tirando de mim a visão.

                As gotas gélidas passeiam por minha pele, encontrando as cicatrizas sob a manga de meu moletom. Centelhas de dor queimam meus nervos.

                 A chuva se torna tempestade, impedindo ainda mais que meus olhos se abram. O vento zunindo em meus ouvidos sussurra palavras de consolo, tentando me afastar dali. Eu permaneço imóvel, respirando devagar.

                Em minha mente um silêncio sepulcral. Não há pensamentos, apenas a voz doce de minha mãe me dizendo que tudo vai ficar bem.

                Sem perceber, eu balanço lentamente a cabeça de um lado para o outro. É ilusório pensar que ela voltará a me abraçar, ou que sentirei seus lábios em minha testa. Seu riso divino se foi para sempre.

                A morte já a levou ceifou sua alma e não há volta. Nada, nunca, ficará bem novamente.

         I’ve been walking in the same way my whole life. I’ve seen my dreams disappear. And everyone who knows me, don’t really knows.

         I’m a puppet, made for entertainment, without a soul, without a mind, without a life.

          As luzes das velas bruxuleavam contra as paredes cor de rubi, criando um clima sombrio ao quarto tão pequeno.

          O cheiro de rosas dominava o ambiente, vindo de um vaso sobre uma estante recostada abaixo da janela, embora estivesse um tanto quanto fraco.

          As roupas do armário de madeira escura incrustado na parede estavam reviradas e jogadas no chão. 

          E eles não eram nada mais que detalhes. Não havia pensamentos. Só havia um beijo. Doce e luxuriante beijo, intenso e tão calmo.

          Seus lábios se tocavam sem arrependimento e suas línguas dançavam uma contra a outra, mas sem jamais se separar.

          Suas mãos, entrelaçadas. Qualquer medo que pudessem ter, não existia mais. Só existia um ao outro e eles estavam juntos.

          Era tudo que realmente importava.

         ”Eu te amo”

            Lágrimas escapam pelos cantos dos olhos, enquanto um fio escarlate desce de seu pulso até o chão. O cheiro de sangue o atinge junto com a dor. Com os músculos em fogo, ele força novamente a lâmina contra seu antebraço. Outro frio escarlate aparece e um frio incontrolável o invade.
            As lágrimas naquele momento eram torrenciais e ele dava pequenos e baixos soluços. Ao longe, ele ouvia as vozes exaltadas de seus pais e de vidro se quebrando. Um grito sobressaído de sua mãe, alto e curto, e ele tem a certeza: ela fora atingida.
Suprimindo um soluço, ele força, outra vez, a lâmina em sua pele. E tudo, outra vez, o atinge. O sangue, a dor, o frio. Uma poça vermelha se formara no chão outrora branco do banheiro.
            As palavras que subiam as escadas, vorazes, eram como lâminas. Cortavam sua alma e a derramava pelos azulejos escarlates.
            E pela janela, ele ouviu o céu prantear e como em um dueto melancólico, prantearam juntos. A tristeza dele se tornara a tristeza da noite.